As Seitas: Um Panorama Entre a Dissimulação Mental Na Subjetividade e na Sociedade


As Seitas: Um Panorama Entre a Dissimulação Mental Na Subjetividade e na Sociedade                                                                                                                                      

          A  dinâmica social e os devaneios dos tempos e da solidão explicada pelas teorias do filósofo Zigmund Bauman o pai da teoria da modernidade líquida, trás a discussão sobre a modelagem social. E quem debate modelagem social acaba sendo regido diretamente pela ciência antropológica baseada nos padrões de linhagem histórica e seus reflexos dos dias atuais a uma visão de futuro. Bauman foi feliz em suas obras ao mencionar esses pontos porque são reflexos de uma sociedade cada vez mais egoísta, individualista e cada vez mais vazia. 



       Os sentimentos se perdem e se refletem em riqueza material e dominação do indivíduo, enriquecimento pessoal e institucional, mas o foco aqui é outro: as famosas seitas ou grupos disfuncionais que possuem objetivos desde ludibriar, iludir e enganar com a intenção subconsciente e porque não até mesmo consciente de obter vantagem pessoal e liberdade financeira através da dominação, segregação e exclusivismo. Interessante mencionar esses pontos porque são dinamismos que em parte são relacionáveis a um vazio e as vezes falta de afeto que assola nosso povo aos dias atuais, rasgam toda uma ideologia que já carrega consigo. Nada de se surpreender, afinal de contas a sociedade se sente tão “sozinha de si" e se preocupa cada vez mais no “ter" e nisso citemos os amigos, relacionamentos, coisas materiais, dinheiro e status social, muitas vezes guiadas por um líder ou líderes mal intencionados, pessoas que muitas vezes prometem guiar para o “caminho do bem” e na verdade levam ao caminho da decadência e da dissimulação. 


           A vulnerabilidade não está ligada apenas ao nível intelectual, mas principalmente ao estado emocional e social do indivíduo . E para quem é dominado,  logicamente nem percebe a situação em que se encontra e acabam entrando no mundo “maravilhoso”, afinal de contas a vida antes disso não valia nada mesmo. O grande problema aqui é quando o “encanto” acaba e o indivíduo volta a realidade. É quando o recrutado percebe que foi enganado e tenta se autoconsertar. É um processo bem complicado porque o “novo" vira rotina e a nova mentalidade e o estilo de vida se torna cego a aquele que domina. A mente humana é muito poderosa, mas de certo modo é até fácil hackea-la. 

         O que vos trago por aqui são meras abstrações de pensamentos dos efeitos nocivos que a lavagem cerebral proporciona. Demonizar o passado e as pessoas envolvidas na vida das vítimas é uma das táticas muito utilizada em grupos de religião (extremista ou não) instituições altamente legalistas, em empresas e nas guerras. Esse processo nem é tão atual,  muito pelo contrário, é utilizado há muito tempo por manipuladores e ganha muita força nos dias atuais com o objetivo de alienar o indivíduo impondo as condições e a construção de uma defesa cega a uma ideologia e inclusive dominando todas as áreas da vida.

           É uma verdadeira capacitação de proselitismo para fazer novos membros em um processo lento e gradual independentemente de raça, gênero, condição social.  É mais fácil acontecer com pessoas que estão com a auto estima baixa, decepcionadas com a vida ou passam por um grande problema e acabam vendo nesses grupos uma solução momentaneamente rápida, sobre tudo para problemas materiais e espirituais, como exemplo, as denominações pseudocristãs que prometem uma “teologia de prosperidade”, Independentemente da matriz religiosa ou ideológica, grupos que utilizam técnicas de manipulação psicológica. Nas guerras a ideia do nacionalismo e patriotismo e juramento e endeusamento de bandeiras e heróis, nas empresas uma ideia de meritocracia à entrega da própria saúde, ou seja, qualquer grupo desse porte se ensina que a ideia do grupo é muito mais importante que suas ideias e necessidades pessoais. Importante ressaltar que a vítima inconscientemente percebe que está sofrendo a lavagem cerebral.


Depois de muito estudo separei as principais fases e suas formas funcionais desses grupos

As Fases:

1 – Fase da omissão

         Os envolvidos com o grupo disfuncional mentem ou omitem informações acerca do propósito real do propósito. É claro que se houver repasse dos reais propósitos, de início pode causar espanto e afastar a vítima da interação do grupo. É geralmente é um grupo pequeno e procuram as vítimas para fins que não envolvam diretamente os propósitos da seita, sempre apresentando informações com meias verdades e idéias distorcidas. Há uma procura sobre o máximo de informações possíveis da vítima antes de tentar agrega-las, isso varia desde a data de nascimento,  parentes próximos e distantes, os sentimentos mais profundos e a situação emocional. Sempre mantém comunicação direta ou indiretamente com a vitima para essa finalidade. É uma fase de iniciação e conhecimento.
Procuram o máximo de engajamento possível da vítima induzindo-a aos poucos na seita e lhes trazendo vários mimos, presentes e máxima atenção. Na troca desses presentes a vítima se sente obrigada a retribuir, seja com a participação em reuniões  “Sem compromisso" é claro, apresentando o máximo de bonanças e com um tom de irmandade exagerada envolvendo e engajando ainda mais a vítima no processo.

2 –  Fase das dúvidas

          Nessa fase a vítima se auto analisa sua vida dentro do grupo e seu futuro com ele e sem ele, as limitações com as demais pessoas de fora dele e etc. Aqui a vítima se sente como uma “faca de dois gumes" ora de um lado a vida que sempre levou e do outro uma falsa “vida nova”, próspera e abundante. Mesmo que a vida tenha sido boa, o ser humano gosta da novidade e acaba sendo tentador. Nesse sentido ficam as duvidas: ou entrar de vez no grupo ou continuar a vida fora dele deixando tudo como está esperando o tempo resolver. É claro que se a vítima tiver passado por momentos de fragilidade como por exemplo, o término de um relacionamento, a separação em um casamento, a perda de algum parente ou dívidas financeiras, processos ruins de vida ou vazio espiritual é mais propenso ela acabar cedendo pelo apoio sentimental e afetivo.

2 – Processo de culpabilização

          O objetivo é expor a vítima trazendo suas fraquezas e acusando-a pelo motivo do seu fracasso. É nessa fase que ocorrem os processos de humilhação pessoal e de culpa. Os membros utilizam das informações da fase da omissão para colocar em prática os motivos pelos quais a vítima passa e aqui começam os processos de lavagem cerebral.  Os membros da seita encorajam a vítima a largar a família, os amigos e a rotina fazendo-os com que perceba que o passado foi que a transformou nesse fracasso. Esse é um processo que requer atenção máxima redobrada por parte dos lideres da seita porque a vítima pode perceber a manipulação ou não ter a mínima idéia que seu cérebro está sendo lavado e suas memórias sendo apagadas, então cada deslize dessa fase pode colocar em risco todo o processo, isso claro, se for feito de qualquer jeito. Ou seja, qualquer deslize pode “acordar” a vítima pela criticidade, afinal o homem é pensador por natureza e é essa sua diferença dos demais animais.

2 – Bombardeio de amor (Love bombing)

         A vítima recebe o máximo de atenção e carinho possíveis dos demais membros do grupo e das pessoas envolvidas. São abraços exagerados, sinais fortes de irmandade e confiança, tapinhas nas costas, presentes e mais presentes, visitas na residência, ligações, passeios, grupos no WhatsApp, convites para sair e etc. fazendo da vítima a pessoa mais especial do mundo com a ideia de transforma-las em lideranças com a menção de que foi escolhido pra defender uma causa ou ideologia que precisa se disseminar para todos os povos em um trabalho de proselitismo. Se sentem ameaçados quando são questionados e sempre se vitimizam alegando perseguição por serem os “detentores do conhecimento” e possuírem a “verdade". Uma característica comum é a autoridade exagerada com os membros e os tornam totalmente exclusivistas.
          Os líderes preenchem o máximo o tempo da vítima de atenção e de tarefas que envolvam o grupo para que ele se não se desligue do grupo e foque no propósito e nas novas amizades que é também uma das formas de controle da mente. A vítima se sente em um momento de êxtase de felicidade e de realização afetiva, desenvolvimento pessoal e espiritual. É coordenado e controlado por um único líder que alega ter passado por provações misticas e sobreviveu ou teve alguma profecia ou sobreviveu a alguma tentação, em resumo, o líder é o foco a ser seguido.

3 – A Conversão do indivíduo

          Nessa fase a vítima já tem seu cérebro quase todo lavado. Depois de um certo tempo fazendo parte do grupo o indivíduo se converte e aceita todas as doutrinas do grupo geralmente em um ritual de iniciação. Os membros o saúdam pela escolha e já um forte afago de abraços e companheirismo. É um momento de extrema felicidade porque a novidade se torna muito “forte e impactante”.
Nesse momento o convertido passará por um processo de capacitação ou catequização (chame como quiser) para trazer novas pessoas a seita (proselitismo) sem a exaltação do exclusivismo.

4 – Fortalecimento do Exclusivismo e Proselitismo

         Uma vez convertido, ao membro é ensinado as verdadeiras doutrinas emanadas pelo grupo como se um“mágico tirasse um coelho da cartola", aqui o cérebro do membro já está totalmente lavado e emocionalmente quebrado. São ensinadas práticas de captação de membros com base em verdades distorcidas em uma fonte de autoridade, seja a bíblia para os cristãos, o chefe para uma empresa, o capitão para o exército e etc.

5 - Fase de abandono

         Com o passar dos tempos, o membro convertido começa a questionar as idéias/doutrinas da seita depois de um tempo começa a trilhar dois caminhos: 1 – ou combate essas idéias dentro do próprio grupo, 2 – acaba por se afastar da denominação. O problema é que na primeira hipótese acontece o processo de exclusão, onde o membro é deixado de lado pelos demais membros e acaba sendo rejeitado/descartado dos demais projetos da seita e nisso o membro passa a ter duas alternativas, ou aceita novamente a doutrina empregada pelo grupo ou é expulso de vez da denominação.

Conclusão

           As seitas e a lavagem cerebral é um problema de saúde pública e cabe a todos uma análise bem aprofundada sobre esse assunto. Importante citar que o problema não está apenas nas seitas, mas na estrutura social que permite que elas existam e prosperem. Afinal de contas isso aqui trata-se de fé e como o nosso povo é riquíssimo nesse aspecto deixa-se a impressão de que religião e política não se discutem. Deve ser por isso que existem muito político bandido enriquecendo através de desvios e empresas laranja e muitos falsos líderes que continuam a pregar e extorquir dinheiro em nome de Deus.



Referencias

STORTI, Esmeraldo. Identificando Seitas: Embora Disfarcem Conseguimos Enxergá-las, Petrópolis, 2018.

Michal, Bernard. A História das Seitas e Sociedades Secretas, Desassossego, São Paulo, 2018

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