Fragmentos de poder: o vácuo que nunca fica vazio
Fragmentos de poder: o vácuo que nunca fica vazio
Do protagonismo à reinvenção: o Movimento Brasil Livre na reorganização do poder político e cultural
Outro dia me peguei pensando
sobre como certos movimentos políticos surgem com uma força quase incontrolável
e, da mesma forma, parecem desaparecer ou ao menos perder relevância com o
passar do tempo. Não somem por completo; seria simplista demais afirmar isso.
Mas deixam de ocupar aquele espaço simbólico que antes parecia lhes pertencer
por direito.
O Movimento Brasil Livre talvez seja um dos exemplos mais interessantes desse fenômeno recente. Durante um período, foi mais do que um movimento: foi linguagem, estética, presença constante. Ocupava ruas, redes sociais e, sobretudo, o imaginário de uma parcela significativa da população que buscava ruptura, questionamento e uma nova forma de fazer política. Mas o que acontece quando um movimento que cresce baseado no confronto decide romper com o próprio ambiente que o alimentou? Talvez a resposta não esteja no “enfraquecimento” em si, mas naquilo que vem depois.
O espaço não desaparece. Ele se divide.
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| foto: Poder 360. Na foto, o ex presidente do Brasil, Jair Bolsonaro |
“A televisão tem uma espécie de monopólio de fato sobre a formação das mentes de uma parte muito importante da população.” BOURDIEU, 1997.
Entre a massa e o nicho
Há algo de inevitável nesse
processo: quando um movimento deixa de falar com muitos para falar melhor com
poucos, ele se torna mais sofisticado e menos relevante. Essa transformação
pode ser compreendida à luz da distribuição desigual de capitais descrita em A
Distinção de Bourdieu. O que ganha em densidade muitas vezes perde em alcance.
Entre o retorno e a reinvenção
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foto: Brasil de Fato. Manifestantes pedem o impeachment da ex presidente Dilma - PT |
A Geração Z opera sob uma lógica distinta, marcada pela fluidez e pela baixa fidelidade política. O desafio deixa de ser apenas alcançar e passa a ser manter. É aqui que o conceito de habitus, desenvolvido por Bourdieu e aprofundado em A Reprodução, se torna central. Não basta atingir o indivíduo; é preciso formar disposições duráveis.
A disputa que não se vê
Há, contudo, um elemento ainda mais decisivo: a entrada no campo cultural. A criação da revista Valete, dos fascículos do “livro amarelo” e de um clube do livro revela uma tentativa clara de atuar na formação de repertório, linguagem e visão de mundo. Essa movimentação encontra respaldo direto na teoria de Bourdieu em O Poder Simbólico, ele afirma:
“O poder simbólico é um poder invisível que só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem.”
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| foto: valete.plus |
Caso contrário, o destino é
previsível: dissolver-se em um campo que absorve, reorganiza e neutraliza
aqueles que não conseguem sustentar sua singularidade. Porque, no fim, a
disputa mais importante nunca foi apenas política, sempre foi, e talvez
continue sendo, a cultural.
Referencias
BOURDIEU, Pierre. Sobre a
televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
BOURDIEU, Pierre. O poder
simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.




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