Fragmentos de poder: o vácuo que nunca fica vazio

 Fragmentos de poder: o vácuo que nunca fica vazio

Do protagonismo à reinvenção: o Movimento Brasil Livre na reorganização do poder político e cultural

fonte: Gazeta do Povo


       Outro dia me peguei pensando sobre como certos movimentos políticos surgem com uma força quase incontrolável e, da mesma forma, parecem desaparecer ou ao menos perder relevância com o passar do tempo. Não somem por completo; seria simplista demais afirmar isso. Mas deixam de ocupar aquele espaço simbólico que antes parecia lhes pertencer por direito.

            O Movimento Brasil Livre talvez seja um dos exemplos mais interessantes desse fenômeno recente. Durante um período, foi mais do que um movimento: foi linguagem, estética, presença constante. Ocupava ruas, redes sociais e, sobretudo, o imaginário de uma parcela significativa da população que buscava ruptura, questionamento e uma nova forma de fazer política. Mas o que acontece quando um movimento que cresce baseado no confronto decide romper com o próprio ambiente que o alimentou? Talvez a resposta não esteja no “enfraquecimento” em si, mas naquilo que vem depois.

O espaço não desaparece. Ele se divide.

foto: Poder 360.
 Na foto, o ex presidente do Brasil, Jair Bolsonaro

            Existe uma tendência quase automática na política: nenhum espaço de poder permanece vazio. Como nos mostra Pierre Bourdieu, os campos sociais são espaços dinâmicos de disputa, onde agentes lutam pela manutenção ou conquista de posições a partir dos capitais que possuem. Quando o MBL perde centralidade, o que ocorre não é um colapso, mas uma fragmentação. Aquilo que antes estava concentrado em um único grupo se espalha, se dilui e se reorganiza em novas formas dentro desse campo político em constante reconfiguração.

            Essas formas são reveladoras. De um lado, figuras como Jair Bolsonaro absorvem a dimensão mais emocional e popular do discurso. De outro, nomes como Caio Coppolla e Rodrigo Constantino capturam um público mais interessado na argumentação e na retórica. Enquanto isso, uma nova geração digital transforma tudo isso em conteúdo rápido, descartável, um fenômeno que dialoga com a crítica de Bourdieu em Sobre a Televisão, onde ele observa:

“A televisão tem uma espécie de monopólio de fato sobre a formação das mentes de uma parte muito importante da população.” BOURDIEU, 1997.

Entre a massa e o nicho

        Há algo de inevitável nesse processo: quando um movimento deixa de falar com muitos para falar melhor com poucos, ele se torna mais sofisticado e menos relevante. Essa transformação pode ser compreendida à luz da distribuição desigual de capitais descrita em A Distinção de Bourdieu. O que ganha em densidade muitas vezes perde em alcance.

Entre o retorno e a reinvenção

foto: Brasil de Fato.
Manifestantes pedem o impeachment da ex presidente Dilma - PT
        Há, contudo, um ponto que não pode ser ignorado: a possibilidade de retorno. Mas retornar ao que se foi um dia implica reconhecer que esse “dia” já não existe mais. Como sugere a obra de Bourdieu - O Poder Simbólico, o poder está diretamente ligado à capacidade de impor significados e ser reconhecido como legítimo. Nesse cenário, a criação de uma estrutura partidária como o Missão representa uma tentativa de converter capital simbólico em capital político institucional. Há, porém, uma variável decisiva: a geração mais nova.

            A Geração Z opera sob uma lógica distinta, marcada pela fluidez e pela baixa fidelidade política. O desafio deixa de ser apenas alcançar e passa a ser manter. É aqui que o conceito de habitus, desenvolvido por Bourdieu e aprofundado em A Reprodução, se torna central. Não basta atingir o indivíduo; é preciso formar disposições duráveis.

A disputa que não se vê

        Há, contudo, um elemento ainda mais decisivo: a entrada no campo cultural. A criação da revista Valete, dos fascículos do “livro amarelo” e de um clube do livro revela uma tentativa clara de atuar na formação de repertório, linguagem e visão de mundo. Essa movimentação encontra respaldo direto na teoria de Bourdieu em O Poder Simbólico, ele afirma:

“O poder simbólico é um poder invisível que só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem.”

foto: valete.plus
Ao investir em formação intelectual, o movimento parece compreender que o debate político não começa nas eleições, mas na forma como as pessoas interpretam a realidade. Se essa estratégia for consistente, ela pode corrigir um dos principais problemas enfrentados anteriormente: a volatilidade da base e isso nos leva a uma revisão da pergunta inicial.

            Talvez já não se trate de saber se o MBL pode voltar a ser o que foi. Porque, ao entrar no campo cultural, o movimento deixa de tentar retornar e passa a tentar se transformar. E, como o próprio Bourdieu sugere, as transformações mais profundas não ocorrem apenas na superfície do poder, mas nas estruturas invisíveis que o sustentam. Se essa estratégia for bem-sucedida, não veremos um retorno, mas uma reconfiguração.

        Caso contrário, o destino é previsível: dissolver-se em um campo que absorve, reorganiza e neutraliza aqueles que não conseguem sustentar sua singularidade. Porque, no fim, a disputa mais importante nunca foi apenas política, sempre foi, e talvez continue sendo, a cultural.

 


Referencias

 

BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

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